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Antonio Lopes - Crônica 344 - Culpa

Sentir culpa sem saber porque, por lembranças de um passado distante ou por situações recentes em que se é recriminado, atormenta a vida de muitas pessoas. A sensação de angústia que faz com que o indivíduo procure se penitenciar e se autopunir indevidamente, afeta a qualidade de vida de uma forma torturante, como se não houvesse o direito de errar e de negligenciar em nada nesta jornada. É um veneno dentro da alma que faz sofrer inexplicavelmente, como se estivesse sendo condenado a pagar algum deslize, como se fosse um assassino, traidor, monstro terrível que provoca prejuízo aos outros.

A culpa invade o Ser e provoca a sensação de desprezo que reduz a autoestima, concentrando a energia interior em situações que já se foram e que nada se poderá fazer, pois não podemos trazer o passado de volta. Por falar em passado não abra a porta para ele, pois não pede licença e entra na sua mente para estraçalhar com sensações as mais variadas, que podem ser avassaladoras.

Porém, recordar pode servir para ressignificar e entender que aquele era um outro momento. Juntar e deletar o que passou, e que só atrapalha a vida, é uma tarefa que ajudará a restituir o equilíbrio do ego. Todas as pessoas passam por situações que as proíbem de tomar uma atitude mais adequada para o seu bem-estar. Há ainda os que ficam juntando acontecimentos ruins para, em determinados momentos dos seus relacionamentos, dizer que a culpa é do outro.

A culpa é provocada por um sistema de valores incutidos na mente humana, geralmente com censura imperdoável, que submete a julgamento e condena ao sofrimento. Leva à reprovação e desvalorização própria e chega a alimentar pensamentos de que não merece viver e de que precisa morrer para pagar seus erros. Quando esses pensamentos assolam a existência, o desejo é de se livrar de tanta dor e, com isso, surge a pulsão suicida. A vida se transforma num inferno de tristeza e o ‘culpado’ passa a sofrer inexoravelmente.

Esse sentimento nefasto é imposto por leis internas que ecoam na mente, como que dizendo: “você tem que pagar”. Os estereótipos sociais ditam que temos que ter sucesso financeiro ou aparente a qualquer custo. A vida fica condicionada ao dever de nos ajustarmos às exigências morais e éticas impostas pela sociedade. Basta ter um pensamento culposo para desequilibrar o estado emocional, sem que tenha qualquer razão de ser.

Pensamentos sexuais com fantasias pornográficas, desejo de vingança, desejo secreto de ter o que os outros têm, ganância exacerbada, tudo isso não é visível mas atua com uma força oculta, resultando em tristeza sem nenhuma razão. A culpa inconsciente busca por um castigo para sermos punidos quando chegamos atrasados, esquecemos de fazer um trabalho ou de um compromisso qualquer.

Os sistemas de valores e normas nos oprimem, mas temos o direito do livre arbítrio para eliminar ou conviver com o que não temos condição de modificar. Devemos sempre lembrar que tudo na vida passa e que não vale a pena chorar ou lastimar o ‘leite derramado’. Viver com sabedoria é usar o presente, com filtro nos ensinamentos do passado e um olhar para o futuro. Não há sentimento de culpa quando empreendemos com corpo e alma. Não somos perfeitos, mas estamos numa trajetória em busca de aprendizado da Perfeição. Importante se dar o direito de errar e tentar de novo. Não procurar culpados, procurar solução.



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