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Antonio Lopes - Ensaio Psicanalítico 421 - Compreendendo a Adolescência

A saudade bate no peito quando lembramos da adolescência. É uma fase crítica que agita comportamentos humanos com as transformações orgânicas e psíquicas, a partir dos 13 anos de idade. Rótulos de rebelde, problemático, desobediente, aborrecente e impossível, entre outros. Os pais ficam sem entender como que a criança se transformou em um ser tão diferente.

Para a Psicanálise, essa fase do desenvolvimento faz parte de todas as pessoas. Não se assimila o que está acontecendo com o corpo, pensamentos e com a sexualidade. E, para piorar, não são compreendidas. A puberdade já vem sofrida pela perda da infância e, de repente, começa a perder a inocência, sendo impelido involuntariamente a representar um novo papel – o de adulto – e alcançar a afirmação de uma personalidade. Desfazer-se da máscara da puberdade e assumir responsabilidades, que às vezes parecem um fardo muito pesado e dolorido para carregar.

O Ego, confuso com as demandas do inconsciente e com as transformações do corpo, manifesta dificuldade com essa metamorfose, tal qual uma lagarta que irá se transformar numa linda borboleta, mas é estimulada a voar antes de estar preparada para decolar, na maturidade. Mudanças psicológicas, alterações de pensamentos, autoestima em risco, novos desafios se avolumando, como obrigação de realizar e atender aos desejos dos pais ou de seus cuidadores.

Vivemos a tecnologia invadindo as famílias, com celulares inteligentes, redes sociais, internet com Facebook e outros estimuladores de desejos, numa enxurrada de informações (e muita inutilidade) que alteram o ideal de satisfação da pessoa. Nas escolas, as condutas de educadores em plena atividade, teclando no celular com uma dependência incrível e, com isso, refletindo como um espelho aos educandos, que passam a admitir que todo conhecimento vem dessa parafernália tecnológica sobrecarregada de informações. O adolescente perde a referência com os pais, vivendo um universo sem cinestesia, que promove prazer instantâneo sem firmar laços afetivos.

Com tanta informação para o jovem que desponta, perde-se o ensino da sabedoria da vida. Assim, a busca do que devo ser, vai angustiando o desenvolvimento e a realização pessoal. Nas conversas com os colegas, falam com curiosidade sobre a sexualidade, sendo que alguns já experimentaram a relação sexual e querem mais. Para os que não foram ousados, desenvolvem o medo de que algo ruim possa acontecer e chegam até a bloquear a possiblidade de um coito, mergulhando na dúvida sobre a sua identidade de gênero, pois a bissexualidade não esclarecida pode levar à fixação de objetos de desejo do mesmo sexo. As pulsões se manifestam e são reprimidas, resultando num conflito interno. Colegas fazem chacotas com a virgindade, piorando ainda mais a aceitação dessa transformação.

A alienação dos seus significantes se confunde com significantes do outro, resultando na confusão para decifrar o enigma ‘quem sou eu’. Desvencilhar-se dos significantes paternos, com os quais se identificava, passa a ser a grande dificuldade para viver sua nova realidade. Descobre que seus pais não são os heróis da infância, que tudo podiam resolver, mas, sim, pessoas também carentes em determinados aspectos, sendo essa descoberta bastante angustiante. Passa a ser o momento para o desencadeamento de patologias nos adolescentes. Daí, não é incomum que a adolescência seja encarada como uma crise familiar, com neuroses incompreendidas.

Por outro lado, os pais sofrem por não saberem lidar com essa transformação e, cheios de boas intenções, criam situações que complicam ainda mais a passagem dessa onda de transformação.

A dificuldade em aceitar que o filho cresceu, e que vai se tornar um adulto, faz com que o jovem passe a desprezar os pais, criticando-os pejorativamente, faltando com o respeito e às vezes até proferindo insultos, culpando-os pela situação em que se encontra. Piora ainda quando os pais usam o poder econômico para dominar, ou abusam com a imposição de autoridade, gerando ressentimentos duradouros.

Carente de amor e compreensão, o adolescente se vê na obrigação de assumir uma vida adulta, quer queira, quer não, com dificuldades em liberar suas capacidades e afetos. É preciso entender que as frustrações fazem parte do aprendizado para atravessar os percalços de uma forma mais tranquila, respeitando o processo que se vive, indispensável para a transição da criança para um novo mundo dos adultos.



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