arraste para o lado para ver mais fotos
Antonio Lopes - Ensaio Psicanalítico 423 - Liberdade e felicidade

A falta de liberdade individual, no sentido amplo da palavra, para fazer o que quiser, quando quiser, como escolher como se vestir, onde morar, qual filme quer assistir, o que estudar, qual profissão assumir, que livros ler, um programa favorito de televisão, uma religião, com quem quer namorar e se casar, como é o seu corte de cabelo e o seu modo de andar, liberdade para se expressar, enfim, tudo solicita escolhas pessoais que nem sempre são realizadas, devido ao que os outros vão pensar e dizer. Falar de liberdade de boca cheia estufa o peito de ar e aumenta o timbre de voz, mas praticar a liberdade vai muito além do que possamos imaginar. Liberdade de ser quem você é exige muito mais, visto que não se sabe exatamente o que somos. Onde há escolha há liberdade. Mas, assumir a autonomia é desenvolver novas capacidades que exigem aprendizado e esforço contínuo. É preciso sair da zona de conforto.

Valores morais, certo e errado, conflitos internos de incertezas ou de absolutismo, acumulam uma confusão mental que não permite a soberania de ser. Medos, ansiedades, desespero, mágoas e feridas na alma por alguma coisa da mais tenra infância que desconhecemos, levam a uma desordem psíquica que aprisiona com fortes correntes de aço frio nas profundezas da caverna existencial.

É um mal-estar cujo conceito é muito complexo, mas que pode ser resumido num sentimento de desamparo, angústia, repressão pela incapacidade de saciar nossos desejos, que ficam arquivados com uma energia de insatisfação em confronto com a realidade da vida. Um grande número de pessoas não quer realmente a liberdade, pois significa mais responsabilidade e as pessoas têm medo de assumir novas responsabilidades. É mais fácil transferir para outros.

A liberdade é a capacidade de realizar suas necessidades e gerar prazer, liberando o que está reprimido, permitindo o despertar da criatividade, sem medo da censura e julgamentos alheios. A prática da liberdade pode trazer a felicidade, a qual é momentânea, pois é o desencarceramento de um desejo sufocado. Quanto mais represada uma pulsão do inconsciente, ao ser liberada traz o gozo com elevado prazer.

Segundo Freud, o homem está sempre em busca da satisfação da primeira experiência, em todas as fases da vida, mas como não tem liberdade de satisfazer a todos, reprime, recalca e a autonomia fica comprometida, incomodando e complicando a satisfação pessoal, resultando em desarmonia. Se um prazer não é intenso, não satisfaz, com isso ficamos incompletos.

As restrições a que nos submetemos inibem a inciativa pois, para satisfazer nossos desejos, precisamos nos libertar dos próprios pensamentos aprisionadores, aprender a ser determinados em atitudes e a correr riscos, sem medo de errar ou de fracassar. A felicidade, então, se verifica na realização pessoal, seja lá do que for, nas mínimas coisas e, para isso, é preciso liberdade interior.

A não realização dos seus desejos tira a autodeterminação e leva à histeria e neuroses extremamente desconfortantes. E tudo isso é 100% humano.



Crônica anterior        /         Página inicial         /        Crônica seguinte




Colunistas Há 19 dias